Zé Claudio e Maria: novo julgamento terá testemunha chave

December 5, 2016

Em depoimento, irmã de extrativista assassinado conta sua busca para encontrar agricultor que pode ajudar a condenar o homem apontado como mandante

 

 Maria do Espírito Santo e José Cláudio Ribeiro, o casal de extrativista morto em 2011

 

por Felipe Milanez - Carta Capital 

 

Claudelice Santos é irmã de José Cláudio Ribeiro da Silva, extrativista assassinado em uma emboscada junto de sua companheira, Maria do Espírito Santo da Silva, na manhã do dia 24 de maio de 2011.

Em 4 de abril de 2013, os dois pistoleiros Lindonjonson da Silva Rocha e Alberto do Nascimento foram condenados, mas o homem apontado como mandante do crime, José Rodrigues Moreira, irmão de Lindonjonson, foi absolvido por quatro votos a três, e saiu livre do Fórum de Marabá. Esse julgamento foi anulado, e um novo marcado para o próximo dia 06 de dezembro.

 

José Rodrigues desde então está foragido. Lindonjonson fugiu da cadeia pública de Marabá no dia 15 de novembro de 2015, e também está foragido. Os familiares relatam a dor de uma segunda morte com a impunidade, um “nó na garganta que aperta de dor”. Abaixo, relato de Claudelice para esta coluna sobre a luta por justiça.

 

Lutar é preciso e jamais desistirei

 

Primeiro foi o trauma, forte e intenso. Depois, aquele medo de cortar a alma: “Como será a vida daqui para frente?” Algum tempo depois, surgiu a necessidade de persistir atrás de perguntas sem respostas. E sem saber como buscá-las, parei e pensei: não vai adiantar nunca eu me lamentar, odiar, querer morrer; não sou assim, nunca fui. Refleti: preciso buscar justiça. Assim começa a minha caminhada em busca da dignidade das pessoas que sofrem com ameaças e com a omissão do Estado na Amazônia brasileira.

 

Em 2011, meu irmão, o extrativista Zé Claudio, e sua companheira, Maria, também extrativista, foram assassinados de forma brutal, sem chance de defesa e por motivo torpe. A tragédia não foi uma novidade. Aqui na Amazônia, primeiro tentam corromper e, se falha a estratégia, partem para o terror. Se o terror não funciona, partem para agressão.

 

Zé Cláudio e Maria nunca se corromperam. Quando puderam, denunciaram as violações contra o meio ambiente. Foram vítimas do violento capitalismo colonialista que opera no sul do Pará misturado a uma opressão medieval e à omissão do Estado.

 

A lógica que provocou esses e outros assassinatos foi exposta pelo ex-deputado Giovanni Queiroz (PDT-PA) no filme Toxic Amazon (Vice, 2011): “Às vezes eles são abusados e temos que excluí-los da sociedade brasileira”. Foi exatamente isso o que fizeram com meu irmão e minha cunhada: “excluir” é sinônimo de matar.

 

O primeiro julgamento

 

Desde o fatídico 24 de maio de 2011, a busca por justiça e a continuidade do sonho ambientalista do casal é uma luta constante em minha vida. 

 

Em abril de 2013, foi realizado o primeiro julgamento sobre o crime, na comarca de Marabá. Em comparação com outros casos de violência no campo, a audiência foi marcada em tempo recorde, devido à pressão nacional e internacional.

 

Ao fim de dois dias desgastantes, tive um sentimento misto de ódio e de forte impotência diante do que foi, para mim, um verdadeiro teatro da crueldade. O homem apontado como mandante, José Rodrigues Moreira, seria absolvido. Somente os executores, Lindonjonson Silva e Alberto do Nascimento, foram condenados a 42 anos de prisão cada um.

 

De acordo com o juiz Murilo Lemos Simão, Zé Cláudio e Maria teriam contribuído para suas próprias mortes: "O comportamento das vítimas contribuiu de certa maneira para o crime", escreveu ele na sentença. A absolvição também não foi uma novidade. A impunidade do mandante é a prática aqui no Pará quando há dinheiro envolvido em crime de pistolagem.

 

Um novo julgamento

 

Em agosto de 2014, com ajuda da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), conseguimos anular o julgamento injusto. 

 

Em seguida, em novembro de 2015, alcançamos o desaforamento para que um novo Tribunal do Júri ocorresse na comarca da capital, em Belém. Lutamos muito por isso, pois é provável que o resultado fosse o mesmo em um novo julgamento em Marabá. Acreditamos que, em Belém, haverá mais chance de um julgamento imparcial, talvez sem as cenas ofensivas e bizarras que presenciamos em Marabá (leia aqui).

 

Esse julgamento ocorrerá na próxima terça-feira, 6 de dezembro. É um dia muito esperado por nós, familiares do casal assassinado, ainda que José Rodrigues esteja foragido e seu irmão, Lindonjonson, condenado, tenha fugido em novembro do ano passado e nunca mais tenha sido encontrado. É provável, assim, que o julgamento ocorra a revelia.

 

A busca da testemunha chave

Desde o primeiro julgamento, em 2013, estava desaparecida por questões de segurança uma das principais testemunhas do crime, um agricultor que também havia sido vítima das agressões e do terror imposto por José Rodrigues e pela Polícia Militar de Nova Ipixuna.

 

Sem essa testemunha chave, corríamos o risco de, mais uma vez, ver reinar a impunidade. Era preciso encontrá-lo para garantir um julgamento justo. E coube a mim essa difícil tarefa.

 

Como o caso teve repercussão nacional e internacional, é comum as pessoas da região evitarem dar o paradeiro de alguém. Casado e com quatro filhas, esse agricultor separou-se e teve de ir embora do Pará devido ao medo das ameaças de morte. A única notícia era de que ele tinha um irmão numa vila há uns 100 quilômetros de Marabá.

 

Combinei com meu irmão de fazer tudo o que pudéssemos para encontrar essa testemunha e saímos em busca de qualquer informação que me levasse a ele.

 

Em um dia de novembro, saímos um dia cedo e, depois de percorrermos muitos quilômetros, chegamos à vila onde havia rumores de onde ele poderia estar. Encontrei pessoas simpáticas e outras desconfiadas. Até que um senhor, ao ouvir o nome do agricultor que procurávamos, disse: “Conheço demais ele, é um homem muito trabalhador, que pena que ele teve que ir embora”. E nos contou que não sabia para onde ele havia ido, pois haviam saído às pressas.

 

Mais uma vez, voltamos para a estaca zero, mas uma pista nos levou até a ex-cunhada da testemunha. Pelo telefone, essa mulher também disse não saber do paradeiro dele.

 

Fiquei muda por um tempo, sem saber o que fazer. Há menos de um mês do julgamento do assassino de meu irmão e de minha cunhada, a principal testemunha estava desaparecida. Do outro lado da linha, a mulher ficou em silêncio por alguns instantes e em seguida disse: “Eu vou te ajudar; sou de uma cidade vizinha à dele e vou pedir pra um parente meu conseguir um telefone ou endereço”.

 

Passaram-se quatro dias, e nada. Liguei e ela me atendeu com voz de desesperança. Não tinha conseguido informações. Perguntei se ele poderia ter voltado para a terra natal, e ela respondeu que sim. Disse o estado, a cidade e duas vilas onde ele poderia estar, um lugar muito longe do Pará. Pensei comigo: “Vou revirar todo aquele lugar, vou onde for necessário, eu preciso encontrar ele.”

 

Mandei uma mensagem para José Batista, advogado da CPT que nos ajuda, dizendo que eu havia encontrado o paradeiro da testemunha. Batista disse para eu ir imediatamente, pois sua participação seria fundamental. No dia seguinte saí em direção ao lugar indicado.

 

A viagem durou uma noite e parte do outro dia. Cheguei e fui em direção a uma das vilas que havia indicado. Meu coração palpitava com a esperança de que iria dar certo, que enfim eu iria conseguir encontrá-lo.

 

Quando estava se aproximando, pedi para o táxi ir mais devagar. Quando eu olho à minha direita, numa casa modesta, mas cuidada, e com muitas árvores no jardim, lá estava ele sentado numa cadeira, recostado. Imediatamente me reconheceu e sorriu. Disse: “Dona Claudelice, eu não acredito que é a senhora aqui, como que a senhora conseguiu?”. Foi muito emocionante.

 

A primeira coisa que perguntei era se ele sabia do novo julgamento. Não sabia de nada, não tinha notícias do Pará, nem que o Lindonjonson havia fugido.

 

Passei o dia na casa dele e de sua nova companheira, sempre muito atenciosa, e das quatro filhas, uma já casada e com uma vida tranquila no interior.

 

Ele me mostrou o lugar onde estavam vivendo, com uma horta enorme, animais e uma roça para plantar arroz e feijão; uma vida típica de um pequeno agricultor familiar, com o mesmo capricho com que ele estava construindo sua vida dentro do Projeto de Assentamento Agroextrativista Praialta Piranheira, de onde foi expulso por José Rodrigues, pela ira de quem acha que tem poder sobre a vida de pessoas.

 

Foi neste momento de pressão que essa testemunha foi defendida e apoiada por Zé Cláudio e Maria, que denunciaram ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) a grilagem de terras dentro do assentamento. Isso provocou a ira de José Rodrigues.

 

Depois de milhares de quilômetros atrás dessa testemunha chave, voltei para casa. Aliviada e com a esperança de que esse novo julgamento será diferente. Trouxe comigo dessa busca a esperança que, dessa vez, a justiça, ainda que tardia, será feita, com a condenação do mandante do assassinato de meu irmão e minha cunhada.

 

A cada dia que se aproxima do julgamento, me sinto cada vez mais forte e ansiosa. Depois de tanto sofrimento nesses últimos cinco anos, tenho esperanças de Justiça, de que eu vou poder respirar e desfazer aquele nó na garganta que aperta de dor.

 

 

 

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