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Casa de Chico Mendes, símbolo da luta pela Amazônia, pode sofrer danos estruturais por cheias constantes

Manchas de sangue do seringueiro, que contavam história de assassinato, já foram lavadas pelo sobe e desce da água


A Casa de Chico Mendes, que funciona como um museu, foi fechada nesta semana, apenas três meses após ser reaberta - Ronaira Barros



Em Xapuri (AC), as cheias extremas e consecutivas podem causar danos permanentes à Casa de Chico Mendes, reaberta para visitação há apenas três meses. Único patrimônio cultural tombado no Acre, a residência simples de madeira é um dos pontos mais visitados do estado, além de símbolo da defesa da Amazônia.

O imóvel está agora interditado devido às inundações dos rios e igarapés, que neste ano já atingem 75% dos municípios do estado. A Casa, que funciona como museu, foi reinaugurada em novembro do ano passado após ficar fechada por cinco anos devido a uma forte enchente.


A preocupação com a residência onde Mendes viveu e foi assassinado é da ativista socioambiental Angela Mendes, filha do líder seringueiro, que segue o caminho do pai na luta contra o desmatamento e por melhores condições aos trabalhadores da floresta.


Angela teme que o imóvel precise ser desmontado e reerguido em uma área segura. A casa é o lugar onde ela passou os últimos momentos com o pai, morto a tiros há 36 anos. 

“Com o desequilíbrio que os extremos climáticos estão causando, meu receio é que essas inundações possam vir a ser anuais e abalar a estrutura de forma que a casa não possa mais ficar no local”, disse Angela Mendes ao Brasil de Fato. A reportagem aguarda posicionamento do Iphan.


Móveis de Chico Mendes foram retirados às pressas


Nos últimos dias, a água invadiu o imóvel, que preserva o legado do criador da Aliança dos Povos da Floresta, movimento que uniu indígenas e seringueiros nos anos 1980. Ameaçado, o acervo de móveis e objetos pessoais do seringalista foi retirado às pressas pela prefeitura de Xapuri (AC), comandada pelo prefeito Bira Vasconcelos (PT).


“Não houve danos nos móveis. A equipe da prefeitura cuidou muito bem do acervo e o retirou antes das águas entrarem na casa”, contou Angela Mendes. Ela lamentou, no entanto, que o endereço da Casa - rua Batista de Morais, 487 - possa não ser preservado.


“A memória de Chico Mendes está fortemente associada à imagem da ‘casinha pintada à mão’, nas palavras de Edgar Zappata, bisneto do revolucionário mexicano Emiliano Zapata, que também lutou contra latifundiários. Ao mesmo tempo, ela também nos remete àquele lugar físico específico”, disse.


Mancha de sangue do seringalista foi removida pela água 


Na última década, a Casa de Chico Mendes ficou mais fechada do que aberta à visitação. Entre 2015 e 2017, o local foi interditado para obras de revitalização após uma grave enchente. Reabriu em 2017, até ser fechado pelo mesmo motivo no ano seguinte. Reinaugurado em novembro de 2023, o museu voltou a ser fechado em fevereiro de 2024.


As manchas de sangue de Chico Mendes, que por décadas ajudaram a contar a história de seu assassinato, já foram lavadas pelo “sobe e desce” constante da água. O imóvel fica a cerca de 100 metros do rio Acre, que em Xapuri (AC) está prestes a bater os 17 metros, um recorde histórico de cheia. 


Em março do ano passado, o Brasil de Fato já havia noticiado que as enchentes ameaçavam a Casa de Chico Mendes, quando o imóvel estava em fase final de reforma. As paredes e o assoalho são feitos de madeira, e por isso são suscetíveis à ação do tempo.


Chico Mendes em sua casa, hoje ameaçada pelas enchentes / Divulgação/Agência Senado


Luta de Chico Mendes segue viva


Chico Mendes nasceu em 1944 em Xapuri (AC). Ele dedicou a vida à defesa dos direitos dos seringueiros e à preservação da Amazônia. Foi contra a expansão agropecuária, que até hoje é o principal motor do desmatamento na região. 


Mendes foi morto em 22 de dezembro de 1988 por um fazendeiro chamado Darly Alves da Silva, com a ajuda de seu filho Darci Alves Pereira, que o atingiu com tiros de escopeta na porta de casa. Darci, que hoje é pastor, foi nomeado neste ano como presidente municipal do Partido Liberal, de Jair Bolsonaro (PL), na cidade de Medicilância (PA). Após a repercussão negativa, ele foi destituído do cargo. 

O assassinato ganhou repercussão internacional e levantou o alerta sobre questões ambientais e sociais na Amazônia. Ele se tornou um símbolo da luta pela preservação da floresta e pelos direitos dos povos da Amazônia. 


Acre agoniza entre secas e cheias extremas


As fortes cheias que atingem o Acre neste início de ano levaram 17 dos 22 municípios a declararem situação de emergência. Quase 6 mil desabrigados foram levados a abrigos públicos. Outras 8,5 mil foram para casas de familiares ou amigos. O total de pessoas atingidas é de 60 mil.


Em Rio Branco (AC), o nível do rio Acre esteve perto dos 17 metros nesta quinta-feira (29), cinco metros a mais do que a cota de transbordo. No início de novembro, durante a forte seca na Amazônia, a água estava em apenas 1,4 metro. A variação registrada no período, de 15 metros, é equivalente a um prédio de cinco andares.

A situação mais crítica da cheia é no município de Brasiléia (AC), a 230 quilômetros da capital, que sofre a pior inundação até hoje. A Defesa Civil declarou que 75% do município está embaixo d'água. Mais da metade dos 20 mil moradores da cidade foi afetada de alguma forma. Na zona rural, 500 pessoas estão isoladas e 20 pontes foram destruídas pela enxurrada.


Brasiléia (AC), município mais atingido, ficou 75% submerso e registrou maior cheia da história / Marcos Vicentti/Secom Acre


Edição: Matheus Alves de Almeida


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