Padrão de disseminação urbana da COVID-19 reproduz desigualdades territoriais 22 de maio de 2020


Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP O novo coronavírus (SARS-CoV-2) tem impactado de forma desigual os territórios urbanos brasileiros. O número de casos e de mortes por COVID-19 tende a ser maior nas áreas periféricas e em regiões que antes da crise global já sofriam com problemas como falta de moradia digna, acesso deficiente à água e saneamento, altos índices de poluição do ar e contaminação do solo.

“Pode-se dizer que a COVID-19 está escancarando as nossas iniquidades. Embora o vírus infecte os indivíduos indiscriminadamente, o impacto da epidemia não é igual na sociedade. Isso está se mostrando um padrão, sobretudo no Brasil, mas também se notam desigualdades gritantes na forma como a doença está afetando diferentes populações nos Estados Unidos”, diz Pedro Henrique Campello Torres, pesquisador visitante na Bren School of Environmental Science & Management, University of California Santa Barbara (UCSB), nos Estados Unidos.

Desde o início da pandemia do novo coronavírus, Torres redirecionou a pesquisa realizada no âmbito de uma Bolsa FAPESP Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE) de pós-doutorado para a análise do impacto da COVID-19 a partir de características sociodemográficas e territoriais.

No projeto original, ele comparava os processos de formulação de políticas públicas ambientais e seus efeitos sociodemográficos nos diferentes territórios urbanos do Norte e do Sul global.

De acordo com o pesquisador, a disseminação do novo coronavírus no Brasil e nos Estados Unidos tende a potencializar os diferentes impactos de políticas públicas ambientais. “O planejamento urbano e a ocupação de territórios em uma cidade estão diretamente associados às transformações econômicas. Processos de reescalonamento, como especulação imobiliária e políticas públicas de habitação, são fundamentais para se compreender como se dá o desenvolvimento desigual dentro de uma mesma cidade”, diz.

Dessa forma, o padrão de disseminação do SARS-CoV-2 exige também uma reflexão sobre planejamento territorial e temas ligados às desigualdades socioambientais. “No Brasil, os casos começaram nas classes mais abastada, até que a doença foi se alastrando para os bairros de menor renda, que também são os mais prejudicados em relação ao acesso a serviços de água e saneamento e de condições básicas de habitabilidade.

Juntam-se a essa questão problemas preexistentes, como doenças respiratórias, dengue e tantas outras vinculadas à falta de saneamento que tornam essas populações ainda mais vulneráveis à propagação da COVID-19”, diz Pedro Jacobi, supervisor do estudo de pós-doutorado e coordenador do Projeto Temático Governança ambiental da macrometrópole paulista face às mudanças climáticas.

Os pesquisadores afirmam que, para além da questão de menor acesso à saúde pelas populações mais pobres no Brasil e nos EUA, a disseminação da doença está diretamente ligada à territorialidade. “Uma doença com forte caráter respiratório deve impactar mais uma população que está exposta a maiores níveis de poluição e apresenta comorbidades, como asma e pneumonia, consideradas fatores de risco. Outro problema: como alguém pode indicar que se lavem as mãos várias vezes ao dia, como forma de prevenção da doença, se não há água encanada e muito menos sabão?”, indaga Torres.

Ele ressalta que a distribuição territorial desigual dos riscos ambientais – saneamento, água ou poluição – vem afetando a qualidade de vida dos cidadãos antes mesmo da pandemia, não só do ponto de vista ambiental como também social. “A noção de justiça ambiental nasce nos Estados Unidos com pesquisas empíricas do cientista social Robert Bullard [da Texas Southern University]. O que se vê nesses estudos é que em áreas de contaminantes tóxicos [rejeitos industriais, agravos ambientais] havia uma predominância de populações afro-americanas, configurando uma desigualdade espacial na cidade”, diz.

De acordo com o pesquisador, no Brasil esse conceito assume outras formas e proporções, como, por exemplo, no caso dos atingidos por barragens em Minas Gerais, dos moradores próximos da mina de exploração de urânio em Caetité, na Bahia, dos pescadores artesanais na baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, da população residente em favelas em áreas de risco por desmoronamento ou das comunidades próximas a aterros sanitários.

Na pesquisa, Torres vai comparar os dados referentes a mortes e infecção pelo novo coronavírus a partir de índices socioambientais e informações de geolocalização. A ideia é verificar como fatores de vulnerabilidade habitacional impactaram de maneira distinta os diferentes territórios municipais no Brasil e nos Estados Unidos.

“Existe um problema grande de subnotificação nos dois países. No Brasil, há ainda falta de transparência nos dados por região das cidades e, nos Estados Unidos, ausência de notificação de casos de imigrantes ilegais, que não têm seguro social e nem sequer são atendidos em hospitais, por exemplo. A análise de dados exige cuidado especial. Vamos contrastar dados participatórios agrupados por observatórios sociais e também fazer pesquisa a partir da informação que recebemos dos moradores para tentar contrapor essa ausência de dados oficiais”, diz.

O pesquisador afirma ainda que, no caso da COVID-19 o problema não parece ter relação apenas com a densidade populacional. Grandes aglomerações urbanas, como Tóquio, Seul, Hong Kong e Cingapura, registraram proporcionalmente menor número de casos que cidades com baixa densidade na Europa ou nos Estados Unidos.

“No Brasil, vemos um aumento chocante de casos em áreas adensadas, como Brasilândia e Paraisópolis, que também têm maior vulnerabilidade social. Porém, diferentes exemplos no mundo mostram que a densidade populacional não parece ser a vilã dessa história. Em cidades como Chicago e Nova York e na Califórnia, onde moro atualmente, as populações mais afetadas são justamente os afro-americanos e os latinos, que não são as mais numerosas. É preciso mirar nas inequidades para compreender o que está acontecendo”, diz.

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