Do bairro Senzala à escola: memórias, identidade e igualdade étnico-racial
- Mauro Scarpinatti
- 19 de dez.
- 7 min de leitura
Professor mobiliza estudantes a investigar a própria história e usa como ponto de partida o nome do bairro para resgatar memórias, enfrentar o racismo e construir pertencimento

Quando as aulas iniciaram, não imaginava o que o ano traria. Eu vinha há algum tempo observando o olhar curioso (e ao mesmo tempo indiferente) dos estudantes quando diziam seu endereço: “Moro na Senzala”. Nada questionavam. Era natural. Como se aquele nome não carregasse séculos de violência.Como professor, jornalista e pesquisador, sempre acreditei que a escola precisa reconhecer o potencial narrativo do território onde está inserida. Eu sabia que aquele bairro de Ingá (PB) guardava histórias, mas que elas não estavam registradas em páginas oficiais, apenas nas memórias que o vento vai apagando quando ninguém escuta. O projeto nasceu desse incômodo. Nasceu porque a educação precisa gerar consciência.
Assim surgiu o “Da Senzala à escola: igualdade étnico-racial nos bairros da periferia do Ingá”, com turmas do 9º ano e participação de alunos do 6º ao 8º ano da EMEIF (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Corina de Azevedo Barbosa. Contei com a colaboração de Jonatas Alves, professor de educação física, e Odinéia Reis, professora de arte.A intenção não era “apenas” ensinar História, era transformar o nome Senzala em ponto de partida para reconstrução de identidades e questionamento crítico do racismo estrutural que ainda organiza silêncios e está presente em nomes de ruas e homenagens.
1º bimestre – a indignação com o caso Mata Nego e a maquete da memória
Comecei o ano letivo debatendo a negritude na Primeira República e a cultura afro-brasileira como resistência. Os alunos falavam animados de capoeira, de músicas, do candomblé, mas sem perceber que a resistência não estava apenas no livro. Estava no bairro deles, no nome deles.
Então apresentei o caso da Fazenda Mata Nego, um episódio brutal ocorrido em Ingá. Contei o que o fazendeiro Ludovico de Melo Azedo fez: “Quando os escravizados estavam envelhecidos e adoecidos, ele preferiu atear fogo e matá-los, já que não serviam mais para o trabalho”. Silêncio. O tipo de silêncio que só acontece quando a história dói.
Alguns estudantes respiraram fundo. Outros franziram o rosto como quem encara algo que não consegue digerir. Um deles falou baixinho:
“Professor, essa rua aqui perto… tem o nome dele, né?”
Outro respondeu:
“E tem uma escola também. Lá tem uma foto desse home aí!”
"Não precisei concluir nada. Eles concluíram por mim"
Daquela indignação nasceu uma proposta: representar em maquete o bairro Senzala, com suas igrejas, mercearias, becos, pontos de encontro. Enquanto construíam, sonhavam o que o bairro poderia ser. Eu percebi que eles não possuíam um olhar muito crítico a respeito do que estava em evidência como os nomes das ruas e escolas, por exemplo. Mas depois vi que ficaram mais interessados. A maquete, a título de ilustração, evidenciou os locais e espaços mais presentes e representativos na memória deles.

Mais do que colar papelão, estavam construindo memória, entendendo que a história do Brasil também se escreve em ruas simples, longe dos palácios, e nos barracos de periferia onde vivem os descendentes de quem foi escravizado.
No fim do bimestre, pedi que entrevistassem moradores antigos. Alguns entrevistaram avós, outros vizinhos, outros pais. Um aluno me disse:
“Professor, minha bisavó contou que aqui tinha um engenho… Eu nunca tinha ouvido nada disso!”
Não era atividade de escola. Era investigação de pertencimento.
2º bimestre – a aula de campo que revelou as marcas da segregação e da luta por direitos
Entramos no estudo da Revolução de 1930, da Constituição de 1934 e do Estado Novo. Expliquei que os direitos civis não surgem por bondade de governo algum, mas por luta. E quando falamos de luta, falamos também de sobrevivência negra.
Assim decidi: a história precisava ser sentida com o corpo. Organizei uma aula de campo em Areia, cidade a 51 km de distância de Ingá. A gestão nos apoiou com transporte e lanche. Levei alunos dos 9ºs anos e também os representantes de turmas menores, porque entendo que a formação da consciência começa cedo.
No caminho, o que acontecia dentro do ônibus era festa, brincadeiras e música. Eu pensava: “Eles não imaginam o que vão encontrar”.
Chegamos à Igreja do Rosário dos Pretos. Uma construção em estilo barroco que foi iniciada no século 18 por meio da mão-de-obra de escravizados. Naquela época, os negros não podiam frequentar a Igreja Matriz da cidade, então, para eles, eram construídos templos específicos. Desde o ano de 2006, a Igreja do Rosário dos Pretos de Areia é tombada como patrimônio histórico pelo Iphan – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Quando expliquei que ali os escravizados que não podiam frequentar a igreja matriz criaram sua própria forma de fé, uma estudante perguntou:
“Mas, professor, Deus não era o mesmo?” E outro respondeu: “Era, mas não deixavam eles entrarem.”
O roteiro nos levou ao Teatro Minerva, o mais antigo do estado. Inaugurado em 1859, ele reflete o poder da elite do açúcar e do café da época. Construído em estilo neoclássico e inspirado nos modelos italianos, o teatro utiliza madeiras europeias em sua estrutura, sendo um marco da história e da arquitetura paraibana.
Depois, visitamos o Casarão José Rufino, construção de 1818 e restaurada na década de 1970. O sobrado é uma das raras moradias do século 19 que ainda preservam uma senzala urbana. No andar inferior, doze pequenos quartos abrigavam pessoas que seriam negociadas na feira de Areia, então uma das maiores da região, enquanto a residência dos proprietários funcionava no andar de cima. Ao entrarmos naqueles espaços, os alunos ficaram em completo silêncio. O chão frio, a luz baixa e a sensação de sufoco transmitida pelo ambiente os tocaram profundamente.

Jurani Clementino / Arquivo PessoalVisita ao Teatro Minerva
Uma aluna segurou meu braço e disse: “Parece que está tudo preso aqui ainda.”
Eu também senti isso. Ali não eram só paredes antigas. Era a história enjaulada. E eles finalmente tocavam nela.
3º bimestre – Ditadura, luta e a resistência quilombola
Ao estudar Ditadura, redemocratização e justiça, fiz uma ligação direta: não há democracia sem enfrentar o racismo. Falei de memórias proibidas, de histórias não contadas. E mostrei que a resistência negra não ficou no passado. Mencionei a título de exemplo a luta por melhores condições de trabalho, por espaços dignos de moradia, indo às ruas protestar quando são violentamente atacados pela polícia… um dos casos citados foi o movimento “Black Lives Matter” (BLM, ou “Vidas Negras Importam”), ocorrido recentemente nos Estados Unidos.
Então partimos para a Comunidade Quilombola Pedra D’água, na zona rural de Ingá. A estrada não era fácil, cheia de curvas e subidas íngremes. “Professor, ninguém sabe que tem quilombo aqui perto!”, diziam.Localizado no agreste paraibano, no município de Ingá, o quilombo de Pedra D’Água deu um passo decisivo em 2010. Naquele ano, o Incra-PB e a Fundação Parque Tecnológico da Paraíba iniciaram o processo de regulamentação e reconhecimento da comunidade como Território Quilombola.

A iniciativa fez parte de um esforço mais amplo das duas instituições para o reconhecimento da identidade de três comunidades quilombolas da região. Além de Pedra D’Água, em Ingá, o projeto contemplou as comunidades de Matão, em Gurinhém, e Grilo, em Riachão de Bacamarte, territórios que resistem a cerca de 100 quilômetros da capital paraibana.

Ao chegarmos, fomos recebidos por uma líder comunitária, firme e orgulhosa. Ela nos mostrou a escola quilombola, a sede da associação, o artesanato em labirinto – que é um tipo de bordado muito comum em algumas regiões do Nordeste brasileiro e bastante complexo, que demanda muito tempo para ser confeccionado.
As mulheres do Labirinto aqui do Ingá já foram participar de desfiles na São Paulo Fashion Week, levadas por Ronaldo Fraga. Essa liderança comunitária nos contou sobre os antepassados, sobre a luta para o reconhecimento como Comunidade Remanescente de Quilombos pela Fundação Palmares, em 2005. Os estudantes ouviram como quem descobre parentes esquecidos.
Entenderam, sem que eu explicasse, que quilombo não é passado. É presente. É luta. É direito.
4º bimestre – a mobilização no território e os novos roteiros de entrevista
Encerrando o ano, os alunos voltaram ao bairro Senzala. Fui três vezes ao bairro com a turma e sempre pedia que conversassem com os moradores. A ideia de levá-los a outra cidade, como Areia, por exemplo, era tirar um pouco o olhar cansado deles sobre a própria realidade. Os lugares planejados foram visitados (Areia, Quilombo Pedra D’água, Bairro Senzala). Talvez o resultado fosse melhor se tivéssemos mais tempo. Pude perceber, nesse momento do projeto, os alunos com outra postura: agora queriam escutar ativamente as memórias.
Dando sequência às aulas, estudamos os movimentos sociais contemporâneos — feminismo, Primavera Árabe, luta antirracista — e relacionamos a ideia de mobilização aos seus próprios gestos no território.
Como atividade, os estudantes criaram roteiros de entrevistas, foram a pé pelas ruas, conversaram com líderes comunitários, comerciantes e moradores antigos. Gravaram áudios, filmaram relatos, resgataram histórias.
O plano era produzir um podcast e um documentário, mas o calendário do SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica, de abrangência nacional) e do SIAVE (Sistema de Avaliação da Educação Básica da Paraíba) nos impediu de finalizar tudo a tempo. Ainda assim, ficou um compromisso firmado entre eles: em 2026, o bairro Senzala vai falar para o mundo.
O que transformamos
O mais importante não foi a maquete, a viagem, o podcast ou as entrevistas. Foi o que mudou na cabeça e no coração dos estudantes.
Muitos passaram a dizer o nome do bairro de outro jeito. Com consciência crítica. Alguns disseram que queriam “mudar os nomes das ruas”. Outros declararam que queriam pesquisar o passado depois de terminar o ensino fundamental.
Vi alunos que quase não falavam nas aulas se tornarem os melhores entrevistadores. Vi famílias que nunca entraram na escola participando das conversas. Vi adolescentes que tinham vergonha do bairro começarem a defendê-lo — não negando o passado, mas reivindicando memória e dignidade.
A Senzala deixou de ser só um lugar. Virou história, resistência e assunto. Quando o território vira pergunta, vira crítica, vira luta, a educação alcança seu sentido mais profundo: formar cidadãos que não aceitam silêncio como resposta.

O resultado de tudo isso é que eles estão aceitando mais a realidade do próprio bairro como pertencente a eles. Onde estão os pais, os avós, os amigos, as brincadeiras de futebol. Além de desejar que eles tenham orgulho do território deles, o projeto desejava ainda que eles soubessem o que está por trás das histórias e memórias, por que esse nome, quem era tal pessoa que leva o nome de uma rua, entre outras questões.
Dessa forma, eles poderiam ser mais críticos com a própria história e com a realidade em si. Ficou perceptível, nas conversas em sala, nos papos informais de intervalo e nas curiosidades sobre próximas viagens… que eles estão entendendo isso, e valorizando mais a sua origem. Reconhecendo a si mesmos e ao local onde moram.

Jurani Oliveira Clementino
Professor de história da rede básica de ensino, jornalista, escritor (autor de dez livros). Membro efetivo das Academias de Letras de Campina Grande (PB) e Várzea Alegre (CE). Em 2023, venceu o Prêmio Literário José Lins do Rego, na categoria crônica.



























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